El Mariachi
Alberto procurou pela sua moeda da sorte antes de sair para a entrevista de emprego. Ela não estava em nenhum lugar. Pensou se o cachorro novamente a teria engolido. Sentou na cama e resolveu se desarrumar e voltar a dormir, afinal, ir pra entrevista sem a moeda da sorte era certeza de fracasso. Deitou na cama e ficou ali olhando pro teto, achando um desperdício de tempo ter que trocar de roupa pra poder voltar a dormir. Mariachi, o cachorro de Alberto, uma mistura de pastor alemão com Poodle, veio chegando como quem não quer nada e quando menos se esperou deitou na cama com Alberto e se aconchegou ao lado dele. - Devolva minha moeda da sorte! – falou Alberto sem nenhuma vontade, ainda com os olhos do teto, já ficando fechados. A resposta do cachorro foram quatro lambidas na mão do dono, que passou a afagá-lo com ela. - Quem eu quero enganar? Eu não consigo ficar com raiva de ti... – falou novamente com o cachorro e virou para o outro lado, abraçando seu travesseiro de espuma canadense, presente de sua antiga namorada. Durante algum tempo a ditadura do silencio imperou sobre aquele lar, até que, uma voz de senhora veio se aproximando da porta. - Ah, o Alberto é muito esforçado! Eu não sei por que nada dá certo pra ele, deve ser olho-gordo daquela Tatiana que se meteu com ele, eu avisei que ela não era flor que se cheire! Agora mesmo ele foi pra uma entrevista de emprego, e, se Deus quiser, dessa vez ele consegue! - É... – apenas confirmou uma segunda voz, também de uma senhora, pouco antes de ouvir-se o barulho da porta. Depois de algum tempo, ouvindo-se somente o barulho de colocar coisas sobre mesas e de sacolas de plástico, a primeira voz volta a falar: - Ele até se esqueceu do sanduíche que eu fiz pra ele! Neste exato instante, Mariachi recomeçou a lamber a mão do dono, fazendo este acordar do sono profundo que se encontrava. Alberto ouviu então, os barulhos de coisas nos cômodos externos ao que se encontrava. “Meu Deus, a mamãe chegou!”. Resolveu ficar quieto, sem mexer nem um músculo para não levantar suspeitas. Ficou na posição imóvel durante alguns minutos, até ouvir as vozes se afastando e novamente o barulho da porta se fechando. Depois de algum tempo não ouvia mais nada. “Ufa....” Pensou se poderia voltar a dormir. Em um primeiro momento achou que sim, mas logo pensou em algo que o fez mudar de idéia imediatamente: “Será que ela fez aquele sanduíche com queijo e mortadela e me deixou de café da manhã?” Esse pensamento o fez se animar um pouco. Saiu do quarto, foi até a cozinha e ficou maravilhado com o embrulho em papel alumínio que o esperava em cima da mesa. Apanhou o pacote, foi até o sofá da sala e ligou a televisão para assistir os desenhos. Mal havia iniciado a comilança, viu que Mariachi assistia à cena do sanduíche com a mesma cara que os namorados ficam quando a namorada diz que ficará sozinha em casa. Alberto olhou um pouco sério para o cachorro, mas logo depois abriu um pequeno sorriso. - Quem eu quero enganar? Eu não consigo ficar com raiva de ti... – e rasgou um pedaço do sanduíche, jogando no chão para o cachorro, que comeu mansamente. E com a mão, a que não segurava o sanduíche, fez um cafuné na cabeça do cachorro.
Escrito por Sósia do Abstrato às 10h13
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