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Roleta Russa

Era como ele ganhava a vida. Uma chance em seis. Colocava uma bala no tambor e girava, botava a arma na cabeça e puxava o gatilho. Um grupo de desocupados e sádicos pagava algumas de suas infinitas moedas para ver o espetáculo de uma cidade sem oportunidades, na esperança de chegar o dia, e ele ia chegar, em que pegariam os trocados de volta, pois não valeriam nada para um cadáver desfigurado.

Um homem, um nada. A perfeita definição. Talvez tenha sido ele a única pessoa que percebera isso, ou talvez única com coragem o suficiente para pôr em pratica o que descobrira. Talvez na volta possa se tornar numa pessoa como aquelas que o rodeavam, com ilusões grandes o suficiente para acreditar que tudo aquilo era o que queriam. Mas ele queria isso? Na volta, ele saberia disso? Decidiu que a segunda pergunta era mais relevante.

Puxou o gatilho, o estrondo fez com que alguns espécimes de urubu das redondezas levantassem vôos frenéticos. Duas mulheres gritaram. O corpo caiu no chão desfigurado. Algumas pessoas pegaram de volta suas moedas, alguns pegaram mais do que tinham dado. Um homem correu para pegar o ônibus, aproveitando que o semáforo ainda estava fechado. Se alguém tentasse roleta russa novamente com aquele revolver era mais fácil morrer atingido por um raio de acordo com a probabilidade, alguém constatou. Não havia mais bala na arma.

Era como ele ganhava a vida.


 Escrito por Sósia do Abstrato às 10h41
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