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  Corja da Fanfarra


A rua. É só atravessar! Dizia a voz em sua cabeça. Mas Marloncio sabia que não era bem assim. Aquele dia, aquela rua... Marloncio agora se preparava para a que seria a ultima travessia.

Algo estranhamente ruim acontecia naquela noite de quarta-feira. A terça-feira anterior tinha sido de muita farra, e a velha dor de cabeça era a companheira de Marloncio nessa noite. Mas, umas boas pernadas de um bom treino de capoeira, com certeza o fariam melhorar. É... Esse é o espírito!

Marloncio agora esperava acordar em sua cama, depois de um sonho bastante estranho, mas que estava demorando demais pra acabar. Era impossível atravessar aquela rua!

Marloncio perdeu as contas de quantas vezes tentara atravessá-la de forma inútil. Antes de pisar do outro lado da rua, inexplicavelmente era redirecionado novamente ao inicio... do lugar de onde iniciara sua travessia, como em um disco quebrado rodando na vitrola de um bêbado amargurado que adormecera escutando uma canção ordinária que fazia seu coração acalorar-se. Isso aconteceu. Nem uma vez. Nem duas vezes. Aconteceu Muitas vezes.

A fase do espanto passara... Marloncio a superara antes da décima vez de tentar completar a travessia. A fase do desespero também. Marloncio chegou a se jogar na frente de um velho Chevette que transitava por ali. Não adiantou. Como por mágica, apareceu novamente na rua, no mesmo lugar do inicio de sua travessia. Então, Marloncio resolveu apreciar um pouco: beijava lindas moças que passeavam despreocupadamente pela rua, arrancou a bengala da mão de um senhor de idade e furou o pneu de um velho militar que com certeza não estava de bom humor, e, então, tentou atravessar a rua. Plin! Lá estava ele de novo no ponto de origem, sorrindo alegremente. A moça, o velho com a bengala, o militar estavam todos ali, intactos, como se nada tivesse acontecido. Até esqueceu da dor de cabeça.

Ah... eu poderia ficar assim eternamente... mas não vou ficar! Então, Marloncio decidiu não atravessar a rua, deu meia volta e voltou pra casa. Não houve mais nada sobrenatural naquela noite.


 Escrito por Sósia do Abstrato às 01h07
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