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Conto de Natal

O Natal. O coração de todos se enche de alegria, todo mundo quer ter alguém pra perdoar, pra abraçar... Pra mostrar sua bondade. Mas sempre há alguém que não partilha dessa onda de energia positiva. Essa é a historia de Xófris.

Xófris vivia sozinho há muito tempo numa casa deixada a ele pelos pais, que apareceram mortos misteriosamente na sala de estar. Desde esse tempo, Xófris, que era uma boa pessoa, se fechou para o mundo. A bela casa onde mora tornou-se o que é hoje: um aglomerado aterrorizante de tijolos, o qual, qualquer um que não conhece o lugar, diria que está abandonada. Mas mesmo os que vêm de fora, não ficam muito tempo sem saber o que se passa e o que se passou por ali: os moradores fofoqueiros da rua Elm não deixam.

Seu Marcio, no mesmo ponto de encontro de todos há mais de 30 anos, um boteco passado de geração em geração, é quem se encarrega de contar a lendária historia.

“Aconteceu há muitos anos... alguns anos depois da morte dos pais de Xófris, nessa mesma época do natal... Um grupo desses garotos que não tem nada na cabeça resolveu excursionar até a casa procurando infernizar o pobre rapaz, que não queria a companhia de ninguém”.

“No grupo, eram cinco garotos que formavam a turma que entrariam na casa. Nem chegaram a entrar. Não todos. Logo no portão, um barulho vindo de dentro da casa fez quatro deles correrem como menininhas. Um, porém ficou para conhecer o verdadeiro perigo, se é que era mesmo perigo... e entrou!”.

“Até algum tempo depois ninguém teve noticia do garoto. Foi quando, na véspera de natal, finalmente viram Xófris na janela, depois de muitos anos... sorrindo... Todos pensavam que o contato com aquele garotinho fizera o jovem querer reativar os laços com a sociedade...”.

- É sempre assim... a criança o fez ver o quanto estava errado... – repete quase que automaticamente o ouvinte, independente de quem seja.

“A historia ainda não acabou!... Enquanto todos estavam felizes com a possível reviravolta na vida do rapaz, o pai do garotinho decide ir buscá-lo. Xófris ainda está sorrindo na janela...”.

“Algum tempo depois, não havia mais ninguém na janela, e ouviram-se dois disparos. O pai desce as escadas da frente chorando tanto quanto um bebê de quem foi tirado o doce... o corpo do garotinho coberto de sangue em seus braços. Há quem diga que o garoto estava sem membros! ‘AQUELE FILHA DA...’ eram as palavras do pai...”.

“Ninguém teve coragem de tirar o corpo de Xófris da casa. E até hoje há quem diga que ele ainda está lá na janela.... sorrindo...”

Seu Jorge então, como num ritual, toma um gole de pinga, e repete pra si mesmo...

- Sorrindo...

 Escrito por Sósia do Abstrato às 18h49
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