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  Corja da Fanfarra


Ele travava combates acirrados empunhando sua espada levemente curvada para uma maior mobilidade. Montando El toro, o seu cavalo e fiel companheiro em todas as suas aventuras fazia até o maior dos bandidos da região se tornarem meros aprendizes diante de sua lamina.

“Vou contar a vocês como foi que peguei um dos maiores malfeitores de todas as minhas jornadas por esse mundo por Deus criado...”. A simples distinção do timbre de sua voz fazia toda a criançada em volta se juntar para ouvir mais uma de suas histórias de monstros e dragões. “É bom... mantém as crianças longe de confusões!” – diziam os pais sorrindo entre si quando viam no rosto de seus filhos a satisfação encarnada, ouvindo as historias de Vinicius. Todos o amavam como a um amigo de infância e era sempre saudado com sorriso quando chegava de suas longas viagens: “Muitos bandidos dessa vez, Vinicius?”, “Sua espada mais uma vez tomou as rédeas, hein Vinicius?”, “Esse é o meu Vinicius!”. Ele era um cara feliz!

Algumas vezes era atormentado por vozes que parecia que não vinham de lugar nenhum. Vozes essas que podiam indicar uma prece, ou algo parecido, alguma coisa que o mantia sonolento, ele não conseguia explicar. Lembrava muito de algum tipo de tragédia que coube à sua memória ocultar-lhe os detalhes. Alguns ruídos sonoros... Mas era facilmente contornada a situação quando encontrava algum de seus grandes amigos! Ele esquecia de tudo...

Uma garota? É claro que havia uma garota! A bela e doce Mariana, que sempre o aguardava com um orgulho muito mais de ser somente amiga. Ela adorava ser a donzela em perigo aguardando a proteção do seu salvador... O mundo deles era perfeito!

Mas foi um dia... um belo dia, que Vinicius viu seu mundo desmoronar...

O agudo ruído uníssono e de períodos iguais se destacou ante a audição de Vinicius, fazendo-o tentar abrir seus olhos levemente, o que não foi possível devido a uma claridade muito forte, que o fez pensar que aquela era a primeira vez que ele os abria... A simples menção de expressar movimentos de qualquer parte do seu corpo o fazia tremer... e sentir uma enorme dor... era como se sentia.

A vista fraca e a constante dificuldade de respirar eram seguidas por algumas vagas e dificilmente identificáveis vozes: “Ele está acordando...”, “Meu Deus... depois de tanto tempo...”

Quando Vinicius Serra deu por si novamente estava em uma cama de hospital. Sentada ao seu lado estava a esposa que o acompanhara em tudo, desde o principio. “Descanse meu querido... afinal foram seis anos de coma! Ainda bem que você está de volta” – ela falou. E ele, lembrou da vida que tivera antes do acidente e respondeu com um sussurro: “É... ainda bem...”, em profundo antagonismo com seu pensamento.

Vinicius nunca mais viu El toro, Mariana, muito menos os dragões e bandidos, e voltou para a repartição. “Por que simplesmente não me desligaram?” – era o que pensava quando deitado ao lado de sua esposa naquele dia, no hospital.


 Escrito por Sósia do Abstrato às 16h11
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