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  Corja da Fanfarra


- A gente precisa se reunir pra combinar nossa historia! Daqui a pouco a polícia chega, e precisamos saber exatamente o que dizer! Sem contradições! – dizia a voz aflita de Teodoro, ainda tremendo depois do incidente.
- É verdade... eles não podem simplesmente encontrá-lo aqui... morto, jogado nesse chão frio! – alguém respondeu. Eu ainda estava sentado ali, quase que em estado de choque, segurando uma mão com a outra, observando o cadáver ali, estirado no chão. Até então, eu não havia dito uma palavra.
- O cara é doido mesmo!!! Como ele faz uma coisa dessas? Eu sempre achei ele um cara totalmente doido, mas isso?!  E se os caras de quem ele falava chegaram primeiro, como vai ser?– Falei em tom um pouco incrédulo.

A cena não queria sair da minha cabeça. Repetição após repetição faziam dela quase como em tempo presente:

Já passavam das duas da manhã. O frio deixava-nos confortavelmente aconchegados. Um em cada sofá. O meu objetivo era destruir todos os exércitos azuis. Eu estava relativamente longe de tal feito. Marcos bate freneticamente na porta, na mesma hora em que alguém comenta: “Um war é um war...”.

Ele entrou completamente agitado na sala. Estava tremendo. Trazia na mão um revólver, um tanto velho, até enferrujado. O mesmo que o seu pai usava para atormentar passantes do residencial em dias de porre.

- Eles vão me pegar! Vocês precisam me esconder em algum lugar... Ninguém pode saber o que... Se todos descobrirem... Eu não sei o que vai ser...

- Calma!! Cara, tu ta pálido!!! O que andou acontecendo pra ti ficar desse jeito?

- Depois eu conto... preciso ligar pra polícia! – e num gesto brusco pegou o telefone e discou alguns números, resmungando: “até agora eles não chegaram... devem ter me perdido de vista”

Todos se entreolhavam espantados e calados, mas não precisava dizer uma só palavra: o pensamento de todos era o mesmo aquela altura. Marcos largou o telefone e desabou no sofá, segurando as mãos com os braços, apoiados na coxa.

- Agora, Marcos... conta direitinho pra gente o que foi que aconteceu pra ti ficar desse jeito... se não a gente não pode te ajudar! – Teodoro falou bem pausadamente, dando a falsa impressão de calma.

Nesse instante, alguma coisa pareceu assustar definitivamente Marcos, que, assustando a todos, deu um pulo do sofá, ficando em pé em uma fração de segundos, e sussurrou desesperado: “Eles estão aqui..... eu ouvi... eles não podem me ver... por favor... me ajudem!!”

- Eu não ouvi nada! – falei normalmente, tentando consolá-lo.
- Eles estão ai... por favor... me escondam!!! – sussurrou novamente!
- Vou mostrar que não tem ninguém aqui... – e me dirigi ao portão da frente, para provar que nada nem ninguém havia chegado no lugar. Eu estava certo... a rua estava tão monótona quanto qualquer outra hora da madrugada, exceto pelo gato, miando, procurando algum lugar pra se aquecer. Ouvi um barulho muito alto, talvez um rojão, talvez não... voltei correndo para  a sala

- Não há ning... – foi uma cena bizarra. Marcos estirado ali. Muito sangue, manchando momentaneamente o chão da sala. O revolver ao lado da cabeça dele. Ele não se mexia mais!. Todos ali, em pé, olhando para aquele corpo... Sem dizer uma palavra.

- Não tinha ninguém lá!!! Quebrei o silencio da sala, mas talvez ninguém tenha me ouvido. - O que foi que ele fez??? Não é à toa que tem os pais que tem... – Disse sem pensar, mas naquele momento não fazia diferença.

Ficamos em silencio por alguns minutos. Me sentei no mesmo sofá em que estava na hora do jogo, completamente apreensivo, não acreditando no que acontecera, uma mão segurando a outra. Ficamos Alguns minutos em silencio.

- A gente precisa se reunir pra combinar nossa historia! ...

- É doido mesmo... o que será que ele andou aprontando... caramba, como vai ser pra dizer pro pessoal da casa dele... eles já não gostam da gente... vão dizer que a gente tem alguma coisa a ver com isso! Se pelo menos a gente soubesse no que ele anda metido... mas não! PPPFFFFFFF....

Levantei e caminhei um pouco pela sala. Todos muito apreensivos. O que seria de tão ruim que precisasse da polícia pra poder resolver? Isso nunca tinha acontecido com nenhum de nós antes. Uma surpresa. Quando ia fitar o cadáver novamente, me vi como um insano: Ele não estava lá!! Agora só a mancha de sangue coagulado no chão, com a marca de sua cabeça! Não havia nenhum sinal de que havia sido dali arrastado. Apontei o local sem dizer uma palavra... todos pareciam tão surpresos quanto eu... ninguém entendia mais nada!

- Mas... o corpo... o sangue... caramba... a policia...
- Não há polícia! – Marcos respondeu – Não há sangue... Não há corpo! Nada disso! – Ninguém disse uma palavra. – pode não parecer... – continuou – mas é só... – PRIMEIRO DE ABRIL!!!! HAHAHAHAAHA!!!!!!

Seguiu-se uma risada insana! Todos olhavam uns aos outros, com exceção de Marcos que agora ria freneticamente. Depois, um tanto quanto cautelosos, todos caíram na gargalhada!

Eu também ri, sem nem mesmo pensar em mencionar o fato de que estávamos em agosto.



 Escrito por Sósia do Abstrato às 22h53
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