"Magno era meu grande amigo de infancia. No belissimo povoado de Curuçá sempre nos encontravamos e partilhavamos de tardes de imensa alegria ali próximo à maré... Tudo bem se ele era um amigo imaginario (coisa d quem nao tem com quem brincar), mas eu gostava dele, partilhavamos sorrisos e adivinhações quando nos encontravamos, proximo aos meus seis anos de idade.
Mas, como todos sabem, o tempo passa, a gente cresce e acaba esquecendo das pessoas que a gente gosta, principalmente se elas forem imaginarias... Muito tempo se passara sem que eu fosse ali perto da maré e encontrasse magno. Agora eu ja tinha mais idade.
E aí veio a adolescencia... e ja me sentia até envergonhado so em lembrar da existencia dele, como aquilo poderia acontecer?! As vezes me pegava rindo sozinho. O garotinho nao existia... a vulga casa dele era uma casa em ruinas... nem se pode chamar de casa. Ria quando minha mae falava do Magno aos meus amigos que frequentavam minha casa. Rio até hoje!
Os anos se passaram e agora, em fase adulta... ja casado e com minha mulher esperando meu primeiro filho, resolvi leva-la onde eu passei grande parte da minha infancia. Disse-lhe que queria que nosso filho passasse a infancia da mesma forma que eu... a essa altura Magno ja adormecia no meu subconsciente e eu nem lembrava mais dele!
Foi em um momento nostalgico, andando pela cidade relembrando o quanto fui feliz ali que resolvi voltar à maré... é impressionante como as coisas mudam... e como algumas coisas nunca mudam: lá estavam as ruinas que um dia foram a casa de magno... intactas, como da ultima vez que eu vi.
Sentado no trapiche lembrei das magnificas tardes que ficavamos ali... quando notei no meio das ruinas, dois olhinhos me olhando, pareciam de uma criança, de nao mais de seis anos de idade. No começo nao liguei muito, mas aquilo foi tomando conta de mim, porque notei que os olhos me encaravam de uma forma quase que robotica... ele nem se mexia! Cheguei mais perto... e vi quem era. Magno me olhava com um olhar muito triste, vestindo a mesma roupa com que o vi pela ultima vez, com que o via todas as vezes que nos encontravamos. Quis chegar mais perto ,mas mudei de ideia, o tempo havia passado, eu nao era mais a mesma pessoa... nao a mesma que passara tardes e mais tardes de sol na companhia daquele garotinho. Eu era outro. Fui andando de costas me afastando cada vez mais daquela casa. Notei uma lagrima escorrendo no rosto do menino, ao mesmo tempo que escorria uma no meu também. Me vendo me afastar, os olhinhos sumiam numa escuridao dentro da casa. Até hoje ainda nao voltei naquele lugar... É... o tempo nao volta..."
"as pessoas fazem qualquer coisa pra gente pagar uma cerveja!" - pensei.
- Tá bom Alberto, pede mais uma lá - falei em tom de desaprovação passando giz no meu taco para aquela que seria a tacada final.
Escrito por Sósia do Abstrato às 10h07
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